
Sobre nós
O Escuta Social Psi tem o objetivo de ampliar o acesso à psicoterapia e, simultaneamente, apoiar psicólogos que desejam desenvolver ou fortalecer sua prática clínica no formato online.
A proposta nasce do reconhecimento de que muitas pessoas desejam iniciar um acompanhamento psicológico, porém, frequentemente encontram barreiras, como financeiras, dificuldades para localizar profissionais disponíveis, conciliar a terapia com o cotidiano marcado por horas de trabalho, ou obstáculos relacionados ao acesso aos serviços de saúde mental.
A expressão Escuta Social Psi remete à construção de um espaço de acolhimento que reconhece a importância da escuta clínica, ao mesmo tempo em que considera que o sofrimento psíquico não se constitui isoladamente no interior do indivíduo. Ao contrário, ele é atravessado por múltiplas dimensões sociais, históricas e culturais que marcam as trajetórias de vida das pessoas. Nessa perspectiva, fatores como gênero, raça, classe social, sexualidade, território, deficiência e outras condições sociais participam da forma como cada sujeito vive suas experiências, enfrenta dificuldades e busca apoio.
A proposta do Escuta Social Psi parte do entendimento de que a saúde mental precisa ser pensada em articulação com as condições sociais e históricas nas quais os sujeitos estão inseridos.
Para Lane (1989), toda Psicologia é social, com isso, é importante reconhecer que qualquer área dessa ciência precisa considerar, em suas análises e intervenções, a natureza histórico-social que constitui o ser humano. Nessa perspectiva, a subjetividade não se forma de maneira isolada no interior do indivíduo, mas emerge nas relações sociais, nas instituições, nos valores e nas práticas que organizam a vida coletiva ao longo da história. Assim, mesmo quando se dedica a processos considerados individuais, a Psicologia precisa situá-los nas condições sociais que os produzem e lhes conferem sentido, sem que isso implique negar a singularidade do sujeito. Ao contrário, essa compreensão preserva a condição humana como participante ativa da história, capaz de interpretar e transformar as relações sociais nas quais se encontra inserida.
Nesse horizonte, conforme Lane (2006), a Psicologia Social volta-se à investigação da relação constitutiva entre indivíduo e sociedade, compreendendo a sociedade como um processo histórico em permanente transformação. Longe de representar um cenário estático, ela corresponde a formas de organização construídas coletivamente ao longo do tempo, nas quais se estruturam práticas de sobrevivência, modos de convivência, costumes, valores e instituições que regulam a vida em comum. Desse modo, a Psicologia Social busca compreender como os sujeitos se constituem nesse entrelaçamento entre experiência subjetiva e organização social, analisando de que maneira práticas, normas e instituições participam da produção das formas de vida e das experiências humanas.
Nessa direção, Martín-Baró (2017) ressalta que qualquer reflexão sobre conscientização sociopolítica exige reconhecer a posição de quem produz conhecimento e intervém na realidade social. Para o autor, torna-se fundamental perguntar quem somos, de onde falamos e a quais interesses nossas práticas respondem. Esse exercício de localização do saber permite compreender que o trabalho psicológico não se desenvolve fora das relações sociais e políticas que estruturam a sociedade.
Entendemos que a construção de práticas voltadas às necessidades das maiorias populares envolve necessariamente um posicionamento crítico diante das desigualdades e dos conflitos presentes na realidade social. A atuação profissional, nesse quadro, adquire um caráter político, uma vez que implica reconhecer as condições históricas que atravessam o sofrimento humano e orientar o trabalho psicológico em direção à ampliação do cuidado e da justiça social.
Esse horizonte também exige uma atuação ética comprometida com as comunidades e com os sujeitos que delas participam. Conforme discutem Ribeiro e Junior (2011), o trabalho psicológico orientado socialmente requer aproximação com a história coletiva dos grupos, bem como com os significantes que circulam em suas experiências compartilhadas, pois é nesse campo simbólico que se estruturam modos de vida, formas de organização e estratégias de enfrentamento das adversidades. Ao mesmo tempo, tal aproximação precisa evitar leituras simplificadoras que tratem as comunidades como realidades homogêneas ou naturalizadas.
Cada contexto social é atravessado por diferenças internas, trajetórias diversas e conflitos que precisam ser reconhecidos para que a escuta e a intervenção não reduzam a complexidade das experiências vividas. Assim, o compromisso ético com o trabalho comunitário implica sustentar uma escuta sensível às singularidades, evitando generalizações e reconhecendo a diversidade presente nas formas de vida social.
Orientado por essas referências, o Escuta Social Psi adota uma perspectiva atenta à interseccionalidade, reconhecendo que diferentes desigualdades podem se sobrepor e influenciar a forma como cada pessoa vivencia o sofrimento psíquico, acessa serviços de saúde mental e encontra espaços de escuta. O Escuta Social Psi busca, portanto, ampliar o acesso à psicoterapia de maneira ética e sensível às diversas realidades sociais, contribuindo para que mais pessoas encontrem possibilidades de cuidado psicológico.
Ao mesmo tempo, a iniciativa também procura apoiar psicólogos que estão iniciando ou consolidando sua prática clínica. Para muitos profissionais, especialmente recém-formados, um dos principais desafios do início da carreira consiste na construção de uma agenda de atendimentos e no encontro com pessoas interessadas em iniciar psicoterapia.
Nesse sentido, o Escuta Social Psi procura construir caminhos que favoreçam tanto o acesso ao cuidado psicológico quanto o desenvolvimento da prática profissional comprometida com a escuta e com as diversas realidades sociais presentes na sociedade.
REFERÊNCIAS:
LANE, S. T. M.. O que é Psicologia Social. São Paulo: Brasiliense. 2006.
LANE, S. T. M.. Uma Psicologia Social baseada no materialismo dialético: Da emoção ao inconsciente. In: Anais do II Encontro Científico da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Psicologia, Gramado, RS, 1989.
MARTÍN-BARÓ, I. Crítica e libertação na psicologia. Petrópolis: Vozes. 2017.
RIBEIRO, C.; JUNIOR, N. Comunidade e o campo da política: Uma reflexão a partir da psicanálise. Fractal: Revista de Psicologia, v. 23, n. 3, 2011.

